domingo, 23 de outubro de 2011

AVÔ, FALTASTE À ESCOLA ONTEM ?


Fotografia de Jaime Bahia
 A culpada disto é a minha filha Mariana! Ela é que andou a dizer à garota que o avô agora andava numa escolinha! Ora a netita ainda não consegue perceber em que tipo de escola sénior é que o avô anda às noites!
            - Avô, porque é que faltaste à escola ontem?
- Porque estava doente, pequena.
- E quem é que te passou o papel para dares à professora? Foi a avó?
É demasiado difícil explicar a uma aprendiz de pessoa, que os avós podem não ir à escola num dia ou outro, sem terem que entregar nenhum atestado familiar…
- A avó deixou-te ficar em casa? E não ralhou contigo?
De imediato comecei a ver o perigo! Imaginam qual é? Passo a explicar. É tudo aquilo que um avô razoavelmente experimentado entrevê nas sombras de uma pergunta daquelas! Não ralhou contigo? Não há água de ribeiro nenhum da montanha, daquela que serve até para engarrafar, tão clara como o armazenamento da resposta avoenga naquela cabecinha que ainda nem conhece a malícia mas já anda a preparar-se para faltar à escola sem ralhos de maior!
- Que doença é que tiveste?
Venha alguém que seja capaz de explicar a uma catraia o que é a diabetes melitus .
Posso tentar, mas sinto-me um tanto deslocado de lhe dizer que tenho muito açúcar no sangue e insulina a menos! Posso prever com segurança a pergunta seguinte:
- Avô, então o açúcar não é bom? Eu gosto!
- Claro, o açúcar é doce, mas faz mal ao avô!
- Sim, a minha mãe já me disse que não posso comer muitos sorvetes e que nem quer ouvir falar dos rebuçados que eu gosto tanto de comer. Comes muitos olás? 
Certo era que tinha que arranjar qualquer doença mais convincente que a tal mellitus de improvável entendimento. Uma constipação, uma qualquer maleita que se veja por fora, com exclusão, por decência familiar, da “falta de vontade de sair de casa ontem”. A diabetes dá essa falta de vontade, mas não pode normalmente impedir-me de lá ir… Já a preguiça…
Ir por uma explicação boa…ou então passar a nunca mais faltar à escola! Para explicações complicadas, soluções fortes!
- E a professora vai-te dar um castigo por faltares?
- Acho que não, ninguém me vai dar castigo por faltar!
- Nããoo?
- Afinal sempre posso levar um bilhetinho da tua avó a dizer que estava doente, que me doíam as pernas, que…
- O açúcar faz doer as pernas?
- Pode fazer…Olha vou dizer-te o que é a diabetes! Escuta bem, certo?
- Tem que ser agora? A Joana disse que me emprestava os patins e se eu não for lá agora, se calhar ela vai brincar com as outras!
Contra patins, não há mellitus que tenha mais força! Vou aproveitar o milagroso intervalo para ir a algum alfarrábio ilustrar-me, não sobre a diabetes, mas como explicar a diabetes a um diabrete!
- Sim, miúda vai lá ter com a Joana, mas vê lá não caias! Sabes andar bem de patins?
- Sim. Sei, mas não muito…os patins não são meus…
Tenho para mim que as mulheres já nascem com este estranho dom de nos sentirmos culpados por não lhes darmos tudo o que lhes passa pela cabeça! Registado: um par de patins para a Ana José. URGENTE, no próximo aniversário, natal ou insinuação subtil, o que vier primeiro!
Tenho o que muita gente da minha idade também tem, a tal diabetes, o caminho lento e faseado para o fim.
Mas isso, imaginem bem, traz-me problemas quase insolúveis nas explicações a dar à minha querida netinha, que lá esperta é ela, mas…
Pensemos no porquê. Como posso provar à miúda que estou doente e é por isso que às vezes não vou à “escolinha”, se nada se vê por fora?
Não há arranhões e todos os avós sabem o quão importante são umas arranhadelas para um candidato júnior a faltista! Escusado, é mesmo escusado pensar no velho remédio “…não dói nada, dou-te um beijinho e um bom-bom e isso passa”. É o passas! Se a ela não lhe apetecer sair da cama, a esfoladela vale como um tesouro irrecusável ali à vista de toda a gente!
Ora se eu nem um arranhão tenho para apresentar à curiosidade infantil, como posso parecer um sério e honesto avô doente? Repito: é melhor ir mesmo à escola…
Outra….”Mãe tenho febre, dói-me a cabeça” (na verdade isto significa…”Mãe, ontem portei-me mal na escola e hoje nem quero aparecer por lá!”). Mas em linguagem netal são para aí uns temíveis 42º Celsius que médico algum consegue contestar!
A prova do termómetro funciona uma vez só, até ela descobrir como se faz subir o mercúrio (o meu termómetro ainda é desses…) até níveis de catástrofe! Depois, todo o “crime” tem que ser objecto de prova. E se não há nada disso, paciência, ela está doente …e vai ser advogada quando chegar à idade!
Mas estão-me a ver a dizer-lhe …”Menina, o avô está com febre?” Não seguramente, a bem da minha credibilidade! Pois se ela já sabe que os termómetros podem ser mentirosos, por maioria de razões adjudica-me de imediato a imprópria qualidade que ela acha que o pausinho que sobe e desce com um bom mergulho na água quente ou um valente esfreganço, tem! E lá passo a mentiroso familiar!
Decido que mesmo com 38, 39 graus, agarro na pasta e marcho para a escola ou para qualquer sítio abrigado do vento, do frio e das vistas da Anita José!
E podia continuar a apresentar provas irrefutáveis da minha impossibilidade de faltar às aulas! Não estou coxo, felizmente os óculos que vou usando, servem muito bem para o que preciso, não sou capaz de mostrar um bocadinho de qualquer coisa, sei lá, um pedaço de diabetes todo escalavrado ou assim, que demonstre à saciedade da rapariguita, que o avô está quase nas últimas e é por isso que, ufff…, naquele dia faltou à escola!
Antes que ela chegasse a casa, dei comigo a preparar cuidadosamente um discurso baseado no direito internacional, coisa de “ na dúvida, pro reo”. Mas realmente pareceu-me que era muito mais fácil…ir à escola para gente crescida e deixar-me de tretas jurídicas com a mocinha.
Tem a sua graça um fabiano erguer-se aos setenta anos na digníssima categoria de avô sabe tudo, e por pretender que o cérebro tem que funcionar sempre e agora (frase bem bonita…) , mete-se numa escola e se veja na desarmante condição de gazeteiro e credivelmente impotente nas razões de uma neta de oito anos!
Ela já chegou a casa, vai ser agora…
E se eu inventasse uma daquelas razões completamente blindadas, por exemplo, escolhendo uma das justificações, que ela já tenha usado com êxito? São boas por certo! Mas há o óbice da clareza da mentira por parte de quem tão sabiamente inventou a desculpa…Que chatice…
- Ricardo, a tua neta trouxe-te esta cartinha para ti. Vê lá o que é.
Abri com cuidado a carta (era só um papel dobrado, sem envelope) cuidando de mim a adivinha do que viria em tal secreto documento que tinha que ser-me chegada por “mensageiro”, a minha mulher, com cuidadas recomendações para eu a entregar à professora na primeira vez que fosse à escola.
Não consegui esconder alguma emoção...Dizia:

Senhora professora

É para lhe pedir para desculpar o meu avô por ele ter faltado à escola.
Ele disse que estava doente, que tinha uma doença muito má com açúcar e  “milites” por causa do mel, que lhe faz doer as pernas.
Eu acho que sim, que ele estava doente e a minha avó também acha. O meu avô é muito bonzinho e não é mentiroso, se calhar estava mesmo doente.
Senhora professora, peço-lhe com um beijinho, que não castigue o meu avô Ricardo. Eu, sempre que ele estiver melhor, faço com que volte à escolinha, vai ver!
Muitos beijinhos da
Ana José
  

2 comentários:

  1. Gostei muito dos contos do antónio!!!

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  2. e ainda há quem envie um atestado médico para justificar a falta tsk tsk ..

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