sexta-feira, 28 de outubro de 2011

OS OLHOS DE LUÍSA

               Se dissessem ao Virgílio que se ia perder de amores por causa de uns olhos, de certeza que com um circular gesto de desdém, abalaria o sujeito através de um vibrantíssimo “Vai-te lixar!”.
            E nem pensem em haver grosseirice ainda que ligeira neste nosso Virgílio de hoje! Nada! Tudo tem explicação, quem não sabe disso?
          Expliquemos que sendo um, ainda há pouco retirado homem de negócios (quais, não importa muito. Eram ou pareciam legais, e chega!), com a vida estabilizada, disfunção eréctil em segura negação de actividade, casado já algumas vezes ou com passagens a arremedar essa situação, o nosso protagonista acossado, rugiria sempre e veementemente o lixar do outro.
           Porquê? Saberemos já sem mais delongas para que a verdade venha rápida e solene!
           Virgílio para além dos negócios que já se declararam de pouco interesse para aqui, era o experimentado dono de um oculista, o VERGILIÓCULOS, & SOBRINHO, LDA. com sede na Av. A-Ver-O-Mar em Matosinhos. Nome esse vero e atraente, antes de lhe construírem entre a loja e o oceano, um prédio daqueles que valha-nos o “Santo Construtor que me tapam tudo”. Protestos camarários com o resultado pré formatado em “Hoje não, só amanhã”. Mudar o nome para a Av. Do Mar Por Detrás do Prédio, é claro que ainda menos sucesso teve nas alfurjas camarárias.
          Sigamos.
         Ainda no tempo do mar à vista, o negócio ocular, em termos de proveitos, via-se muito razoavelmente bem. As areias de mistura com o sol resplandecente (lugar comum já a apontar para o que se irá seguir, não é para brilhar à custa do leitor, acreditem) e o ar viril do dono e atendedor, traziam clientes e problemas aos casamentos dele, que se iam sucedendo de primaveras a invernos cadenciadamente regulares.
        Olhos castanhos sob oxigenado loiro cabelo, sobrancelhas recheadas a rímel e sombra negra como as almas que as transportavam, córneas míopes, poli cromadas íris, suaves verdes nórdicos de vistas atingidas pelo mesmo sol que as tingia de vermelho tinto, tudo entrava naquele estabelecimento, pleno de ânsias de mudar de óculos para alguns e de parceiro na cama para outras! O auge acontecia implacavelmente em cada Verão.
       O Virgílio lá estava para, prontíssimo atrás do balcão, navegar naquelas ondas de óculos  novos  e sexo estival.
         E conta-se isto porquanto o berro inicial foi um sonoro “Vai-te lixar” à torpe acusação de apaixonamento por uns olhos novos que lhe rondaram a presença. 
         Axioma: ora se na sua vida profissional fora por tão longo e apreciado tempo um voraz devorador de visões de várias cores e formatos, não seria agora já de eréctil praticamente reformado, que iria ficar sem Norte e bússola cardíaca a rodar sem travão, arriscando-se sem remédio a gripar!
           Querer e não ter, é um permanente sarilho para o Universo. Qualquer mãe sabe que não ter o que se quer, é a pérfida origem dos mais desmamados berreiros infantis.
        A permanente insatisfação humana vem provadamente de trás, desde o espanto originado pela primeira visão que o homem teve, logo a seguir à conversinha com o iracundo criador disto tudo, na qual lhe foi retirada a imunidade à beleza da mulher, com ou sem uso da serpente.
        Isto há-de durar assim, sempre com a mesma teimosia, até não haver mais sempre.
       Voltemos agora já muito mais elucidados, ou pelo menos mais abertos a aceitar as razões invisíveis que levaram o Virgílio, mesmo depois do “Vai-te lixar”, a ficar atulhado de curiosidade por uns olhos bonitos de que nem sequer conhecia a dona!
É, portanto, de necessidade imperiosa dizer onde é que raio ele teve a visão que o perdeu, ainda que desconhecendo que era isso mesmo que lhe estava a fazer variar as temperaturas dos líquidos e órgãos internos.
Foi num bar.
Bar é uma forma de dizer, era um sítio com muita gente a fingir que estava feliz (concordamos que alguns já não fingiam, devido à relevante permanência no local) e acreditando sem desfalecimento que a vida vinha sempre ao de cima a partir do fundo do copo.
Ela estava lá. Outras também, sem dúvida! Mas ela brilhava como candeia acesa em contra luz de carvão.
Sorria. Toda ela refulgia (e o uso de palavras destas já deixa entrever o enlevo, o agitar do…Chega, já se percebeu!) no banco alto a que todos os anjos têm direito desde a visão primeira com a maçã (Golden ? Reineta?) na mão.
Entre eles havia o oceano, o desconhecido e as máquinas de tirar cerveja. Inalcançável!
Quem seria a causa daquele ainda há pouco insuspeitado desvario? Nome, senhores, nome? Quem me acode?
          Lembrando tempos de escola, veio a resposta: NINGUÉM!
Perdas sofridas de tal intensidade que vamos ocultar por pudor, abalaram as certezas virgilianas. Tinha que a conhecer! Um balcão e um possível Sir Galaad de bar, por mais bruto que fosse, não competiria com a vontade de ter e amar aqueles olhos de tão elevado esplendor (voltamos à mesma?), o futuro em forma de perfurante e ciclónico olhar, todo ele a gritar-lhe …”Olha-me que estou aqui para me amares!”.
Um mar revolto já não o deteria! Sem saber nadar, cruzaria atlânticos até aquele deleite (já começa a ser repetitivo e chato…), rolando-se para sempre nas ondas daquele olhar (que havemos de fazer? Aguentar? Encolham-se os ombros e aguentemos, então…) inebriante!
Quem não aguentou foi ela! Quando então Virgílio “se atirou ao mar” para a prometida natação, já a Olhos Lindos levantara âncora para outros portos. Dizem que o amor é cego…e terá sido isso que aconteceu ao nosso homem, ficou cego e não viu a saída pela porta do tal enlevo com que nos tem estado a encher a paciência. Ficou um negrume onde antes estalejavam foguetes de todas e brilhantes cores…
Melhor é resumir para ficarmos a salvo dos “enlevos, tremeluzentes e pieguices semelhantes” que passaram a tomar conta dos tempos e comportamentos do nosso Virgílio.
Moveu amigos, criou inimigos, incomodou gente em todo o litoral matosinhense e cercanias do bar onde vira a Bela Desaparecida.
Idealizou campanhas electrónicas via facebook, onde um apelo lancinante (agora sou eu…) jorrado pelos “amigos” todos do piroso sistema, resultou numa lista quilométrica de candidatas a tal, tal sou eu a desaparecida, tudo ornamentado com larga cópia de rostos e olhares entre melosos e terríficos mas…nenhuma era ELA!
Alguém lhe recomendou o uso de um daqueles técnicos da polícia que desenham as caras pelas recordações de cada um. Ali foi recorrer! O técnico lá se apiedou de tão triste falta de sorte em tanta paixão, e tentou uma, duas e mais vezes acompanhar com o lápis as descrições do apaixonado.
Confusas eram e muito ambiciosas. Tanto que o desenhador desistiu e aconselhou o destroçado homem a recorrer a algum Caravaggio porque a esse não lhe faltaria o traço que a ele já lhe saia rombo de tanta exigência.
- Onde posso encontrar o Caravaggio? Digam-me! Pago, o que for preciso! ONDE?
Brincalhões sem piedade, ainda lhe foram dizendo que se não desse com esse, procurasse um tal Velásquez, artista também muito conceituado no retrato…
Depois de muito procurar, quer por um ou pelo outro, deu como falhadas essas tentativas – e acrescentados que foram ao número dos inimigos os impiedosos trafulhas – viu-se sem solução para se espraiar naquele dulcíssimo olhar (já estamos habituados, nem vale a pena comentar mais…) e voltou ao bar, onde aliás já se tornara visita habitual. Já nos negócios é difícil dizer o mesmo.
Nem os óculos nem as tais ocupações mais ou menos legais de que não falei por não interessar para a história naquela altura da virgiliana vida, dizemos, nem uns nem outros, o viram com a frequência aconselhável aos acumulares de rendimentos que nos faz andar aqui todos de gravata ao pescoço, em muitos dos casos, ou mesmo sem ela se nos estivermos a referir a atender as clientes que queriam mais alguma coisa do que lentes novas com descontos com bónus de alcova.
O sobrinho – o do VERGILIÓCULOS, & SOBRINHO, LDA – iniciou-se nessa parte mais lúdica da actividade da loja, esperto, sabendo das aflições erógenas do tio e da perdição que o tresloucava (no comments, please) , no momento, concentrando-se nas mais promissoras clientes que lhe franqueavam o estabelecimento.
Um pequeno defeito que lhe vinha desde a muita juventude, o de fotografar pelas escondidas mesmo quem lhe aparecia às claras com a mais branca das intenções, veio a ser extremamente importante para o desenlace (…) desta procura pela Olhos Lindos, também conhecida por Bela Desaparecida.
Notou que uma airosa senhora, dos seus trinta e pouquíssimas estações do ano, rondava a porta, uma e outra vez. Numa não fotografou, noutra clicou.
A dama nunca entrava na loja, espreitava só pelo vidro da montra, local ideal para montar a objectiva, o que fez com a maestria do hábito adquirido.
Nem lhe cruzaria os pensamentos o choque que o tio Virgílio teve ao ver estarrecido o que lhe caíra no clique! Já adivinharam, não se faz render mais o mistério, era a Bela agora Aparecida!
-ELA!
- Quem tio?
- ELA!
- Ela quem, tio!
- ELA!
Convencendo-se do perigo do diálogo não andar muito mais para a frente, Filipe, (já disse que era o sobrinho de Sobrinho, Lda.? Não disse? Era.) encheu-se de subtilezas e guardou a fotografia.
Resultou em cheio! O discurso do tio, após passar por audíveis e vernáculos insultos, mudou de quantidade palavrosa e em ritmo frenético contou porque se comportava daquela maneira atribulada e gaga.
- A tipa vem às vezes por aí, tio! Vem, olha cá para dentro, e passa em frente!
- Quando? Sempre? Todos os dias? A que horas?
- Todos os dias…não.
- Vou esperá-la sem largar a porta, sem que haja forças para me arrancar desta longa esperança! Os olhos do meu sonho, aqui!
E montou o esquema. Só não dormia lá porque o Filipe lhe garantira que ELA nunca vinha à hora das estrelas. De resto, guarda cerrada, tinha mesmo que encontrar aqueles olhos mais lindos que algum afortunado já vira em vida.
- TIO! Olhe ali!
Precipitou-se para a porta. ELA era ELA! E ia entrar na loja!
- Boa tarde! Chamo-me  Luísa Esteval.
- Boa tarde! Encontrei-a! Prazer… que prazer em vê-la, D. Luísa!
- O sr. chama-se Virgílio de Castro Simões? Comerciante e dono deste oculista?
- Sim…como sabe?
- Encontrei-o, finalmente!
- À sua INTEIRA disposição!
- Polícia de Investigação. Queira fazer o favor de comparecer na sede para prestar esclarecimentos sobre uns negócios de que temos dúvidas. Será detido se não comparecer. Boa tarde.
Caiu-lhe o mundo estrondeante e em farrapos! Foi terrível…Mas o diabo da mulher tinha mesmo uns olhos de maravilha! Suspirou...
Fotografia de Jaime Bahia

3 comentários:

  1. "Os olhos de Luisa" ,que lindo conto!Parabéns e obrigada Anrónio!!Vale a pena continuar a escrever e nós a lermos. Ana

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  2. A escrita e a criatividade estão-te associadas e fico sempre deslumbrada. Continua.
    Margarida

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  3. António, cá estou eu num bocadinho de tempo roubado às obrigações, para me deleitar nas devoções, neste caso devoção à leitura dos teus contos, que são puro deleite.
    Mais uma entre as tuas fans.
    Beijinho
    Carolina

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