terça-feira, 8 de novembro de 2011

QUENTES E BOAS!


                                      Foto Jaime Bahia
    Quentes e  boas! Era assim que o muito conhecido Martins das Castanhas se referia às mulheres que via pelas ruas e praias por onde estalava as suas castanhas. Não será de estranhar o apelido porque ele próprio não se chama Martins das Castanhas, é alcunha, o mais acertado seria dar-lhe o nome de baptismo…se alguém ainda o soubesse. Mesmo a quem ele escolhia as melhores castanhas, nunca contou o verdadeiro nome.
Sabia-se à evidência que o homem era casado, bem…vivia com uma mulher. Mas também ninguém a via e sobre o nome há o mesmo nevoeiro que envolvia o marido, se marido era.
            As mais sabidas das mulheres contavam histórias de grades e terrores que o  Martins – por facilidade usemos então o nome do comum – teria usado e passado.
            - Olha que o ar dele…nah! Eu não me fiava nele…
            - Sei não! – dizia a brasileira da banca do marisco – sei não se é verdade! Olha aqui! A mim nunca me fez mal!
            - Lá está! É porque tu és quente e boa! – é por isso, brasuca!
            Abandone-se este linguarejar de praça do peixe e cheguemo-nos às castanhas que, mesmo fora da época do S. Martinho do bom tempo no Inverno, eram sempre boas e invariavelmente quentes.
            - Olhá quente e boa!
 Significava mulher em reduzido traje que passava na rua ou na praia.
            - Quentes e boas!
Eram as acastanhadas pelo fogão, não as bronzeadas pelo sol.
            Verdadeiramente o de sol a sol não era o sonho de trabalho do nosso Martins. Ele pendia mais para o de lua a lua… Era-lhe mais fácil treinar o pregão durante a ausência solar nesse período de luzes artificiais cintilantes, sem o exagero do sol.
Considera o historiador da Martins – é de bom tom que um sujeito com tais predicados tenha um historiador próprio. No caso era o Júlio, barman no “Gato Sóbrio” igualmente possuidor dum petit nom algo impróprio para se citar neste lugar de recordações históricas. Basta dizer-se que se tratava de coisa de molde a fazer rir as donzelas locais. E chega!
Pare-se aqui que há gente decente a quem não interessam estas inconveniências, muito especialmente se estiverem acompanhadas por outros…igualmente chatos de aturar!
            Volto ao sítio de onde saí, há tão longamente, por culpa do Júlio dos copos.
Alí em cima, arengava-se que o historiador do Martins, que já sabem compridamente quem é, tinha por arreigada opinião mesmo quando estava sóbrio, que havia droga na costa. O Martins antes das noites quentes, passava boas estadias a velejar por mares já muito navegados e sempre debaixo da protecção da polícia respectiva. Para onde fosse o navegante para onde se focavam as atenções protectoras das autoridades. Um carinho.
            Incapaz de agradecer tais atenções, o nosso historiado, enchia a boca quase tanto como  enchia os bolsos – e nunca se disse que era pouca a enchidura – contra o agente Passos seu mui estimado inimigo do coração.
            Acho que já há gente impaciente para se arribar ao conhecimento de como é que tal figura aparece hodiernamente a vender castanhas! Acredito nisso…mas ainda há mais paciência a utilizar até ao final do caminho.
            Continuemos!
            Uma bela noite, ou seja, em pleno horário de trabalho, o Martins das Castanhas, em recinto dançante e alternante, apregoava com voz de surdina que dispensava pastilhas de efeito quente e bom. Muitas eram as compras de tais produtos que depois de usados punham os consumidores capazes de alternarem toda a noite aos saltos, vivinhos e alegres que nem castanhas quentes, por via também da ajuda do álcool misturado na receita nocturna.
            Corria a vida à chamada maravilha.
            Sara, Sara foi a perdição! Entrou de rompante, aqueceu ao fogão do amor rápido e estalou na pacífica e ilegal vida do Martins.
Levanta-se agora um pouco do véu, é preciso fazê-lo, para informar os impacientes que o Martins ainda não era o Martins das Castanhas! Estamos ou não a andar na senda do mistério? Sim, claro!
            Sara nua, Sara vestida, Sara na vela, Sara de qualquer forma, e ainda mais Sara, foi dando não só a volta ao nosso homem, mas até fazendo dele um verdadeiro pião! Descontrolado! Louco! Lulu de todo!
            Como se deixa adivinhar, as pastilhas, o seu negócio pastilhento, não se coadunaram com sarices desmedidas.
            Houve que desaparecer durante uns tempos. Júlio, o historiador copeiro, afirma que o tal Passos nada teve com os passos de fuga que o Martins terá ensaiado em boa e quente companhia. Negava mesmo tal acusação, fruto das más línguas e dos jornais, sempre tendenciosos. Um deles até, publicara uma estonteante foto da Sara em muito atraentes propósitos e nudez superior. Título: ESTA MULHER NÃO É UMA SARA MAS UMA SALOMÉ! Assim a quatro colunas para nelas caberem os atributos da rapariga e a maledicência sobre o presumido fugitivo.
            Naqueles tempos apelidados da “outra senhora” – machices , porque não encontro ninguém capaz de me explicar porque não diziam do outro senhor” que era a realidade! – naqueles tempos, repito, era vulgar que gente das nossas intimidades, desaparecesse sem rasto durante uns tempos. Nada de extraordinário: iam e às vezes vinham, e depois?
O Júlio quase transformado em cara e coroa desta história, constituía o melhor garante dos destinos um tanto viajantes do Martins.
            É bem verdade que essas atitudes de farol de costa, acende/apaga, aparece/desaparece, podiam ser entregues às necessidades do negócio das pastilhas, e assim se foi vivendo.
            Quando na terrinha se mudou de “senhor” para “outros senhores” com tudo a ficar quase na mesma – mas só lá mais para a frente… - aconteceu mais um eclipse do Martins.
            Durante bastante tempo, nada mais se soube dele e o povo andava entretido a deixar crescer os cabelos e as barbas, cantando pelas esquinas e gastando o que tinha e o que não se sonhava sequer se havia, …pois… não era boa ocasião para trazer à cabeça personagens menores como os que apregoando “É quente e boa” teriam ido levar ou buscar pastilhas mágicas ao outro lado do Atlântico. É que foi para lá tudo! Bons e maus acotovelaram-se nos aeroportos. Já o regresso foi mais calmo…Prudência nos passos a dar, olhadela pelo virar das esquinas, consultas furtivas aos amigos de outrora, assim…
            Reparou-se que o Martins voltara dos brasis. E viu-se mais que assim era pela prova do marisco! Na praça do peixe começou a brilhar uma quente vendedora de camarões e sapateiras que nunca impedia a boca de falar de um tal Cárlitos que de amigada lá, a trouxera para peixeira, cá.
            Curta era a manta que tapava essa cabeça porquanto logo que puxada para os pés, deixou ver no homem que vendia castanhas à porta do mercado, a cara do Martins.
            - Quentes e boas – anunciava.
            O que nunca deixou que anunciassem, foi a razão das suas visitas longínquas à polícia, não a de Segurança Pública, mas à outra, a de Defesa, a já acabada, onde a troco de umas informações quentes e raramente boas, ia mantendo vivo o negócio das pastilhas.
            - Vai umas castanhas patrão?

4 comentários:

  1. POIS É SÓ O ATÓNIO SE LEMBRARIA ,DE PÔR NO SEU BLOGUE EM ALTURAS DE S.MARINHO ,UM CONTO "QUENTES E BOAS" . NÃO ERA O MARTINHO ,MAS SIM O MARTINS,MAS DE QUALQUER FORMA MUITO INTERESSANTE PARA LÊR E COM GOSTO,EMBORA AS CASTANHAS ESTEJAM CARAS.CONTINUA COM O TEU BLOGUE ,JÁ É UM HÁBITO VIR AQUI ÀS QURTAS FEIRAS

    ResponderEliminar
  2. António, que inveja, ver que não pára e que a sua imaginação criadora não tem fim...grande abraço fiel da Yvette em estado de letargia criadora!

    ResponderEliminar
  3. As castanhas aquecem o estomago, e as letras aquecem a alma...
    Bela imaginação, gosto. É favor continuar.
    Boa semana.

    ResponderEliminar
  4. Pois é, o São Martinho chegou. A tua escrita criativa, essa nem precisa de santos, flui com uma imaginação fabulosa e que prende a leitura até ao fim, para se saber o desfecho. Continua. Bj

    ResponderEliminar